Ao longo dos últimos anos a Ásia se transformou no principal motor da economia mundial. O continente é responsável por mais de 35% do PIB e 60% do crescimento globais, e não para de ganhar terreno. São várias as estimativas que apontam para uma participação superior a 40% no PIB global no início da próxima década e de até 50% em vinte anos. A região possui 4,8 bilhões de habitantes, ou 59% da população do planeta.
Os números expressam mais do que a definitiva decolagem da China no cenário global, do que os avanços da Índia e da já consolidada relevância de Japão e Coréia do Sul. Os emergentes Vietnã, Indonésia e Filipinas são destaques que correm por fora.
Mas a crise energética gerada pelo conflito no Oriente Médio está levando um grande impacto para essa região que é a maior importadora de petróleo do mundo.
O cenário atual já levou o Banco Asiático de Desenvolvimento a reduzir suas estimativas de crescimento no sistema Ásia-Pacífico (que inclui ainda a Oceania) de 5,1% para 4,7% este ano, além de prever uma inflação em alta, na média de 5,2%.
Não é difícil entender as razões para revisões para baixo tão significativas. As importações de petróleo da Ásia respondem por mais de 80% dos embarques do produto que passam pela região do Golfo Pérsico e caíram 30% em abril em comparação com o mesmo período de 2025, chegando ao nível mais baixo desde outubro de 2015.
Governos da região estão sendo forçados a gastar bilhões de dólares não previstos em seus orçamentos para subsidiar compras cotadas em torno a US$ 100 por barril. Além disso arcam com as isenções de impostos de importação para ajudar a amortecer o impacto da crise atual nas suas economias e no dia a dia dos consumidores.
Medidas como racionar combustíveis e forçar a diminuição do consumo de energia de diferentes maneiras estão sendo tomadas, em paralelo a decisões de frear exportações de itens que podem ser considerados estratégicos demais neste momento de incertezas.
A China, maior importadora de petróleo do mundo, embora sentada sobre uma considerável reserva estratégica correspondente a pelo menos 5 meses do consumo nacional, restringiu as exportações de combustíveis e fertilizantes tornando tais entregas seletivas e privilegiando compradores específicos como a Austrália.
A Indonésia, país gerador de um volume significativo de energia, determinou que o mercado interno deve ser priorizado e suspendeu temporariamente as exportações de GNL (gás natural liquefeito). A Tailândia passou a incentivar o teletrabalho para evitar deslocamentos de funcionários e tem orientado seus cidadãos a moderar o uso de aparelhos de ar-condicionado, entre outras medidas.
Apesar dos pesares o banco Goldman Sachs entende que o impacto econômico do conflito no Oriente Médio na Ásia não está sendo tão ruim quanto poderia ser.
De qualquer forma, a instituição reduziu as previsões de crescimento este ano para o Japão e alguns países do Sudeste Asiático, elevando ligeiramente as expectativas de inflação. Seus analistas levantam questões de fundo: em que medida atravessar as atuais turbulências tem sido possível devido a um robusto e estruturado sistema de proteção? Ou em
que medida essa travessia só tem sido possível pela liberação de reservas estratégicas de petróleo que pode trazer dores de cabeça mais à frente?
São questionamentos razoáveis que levam a uma outra dúvida, que diz respeito ao fôlego de todos os esforços que estão sendo feitos nesse momento.
A reflexão é válida quando se sabe que mesmo que o conflito no Oriente Médio chegue ao fim rapidamente e o estreito de Ormuz seja liberado com agilidade as entregas de petróleo mundo afora não serão normalizadas tão cedo. Isso porque além do natural reordenamento da logística como um todo, serão necessários meses para reparar os danos causados pelos bombardeios feitos pelo Irã ao sistema integrado de exploração e refino do petróleo em países produtores da região.
E mais: as moedas dos mercados emergentes asiáticos foram as que mais caíram em relação ao dólar com a crise energética, comparadas a outras moedas globais. Isso representa uma preocupação adicional.
Desde o início da guerra no final de fevereiro o peso das Filipinas caiu mais de 5%, o baht da Tailândia e a rupia da Índia desvalorizaram mais de 2,5% e o won da Coréia do Sul baixou 1,15%.
O yuan chinês é a moeda com melhor desempenho na região, com alta de 0,8% em relação ao dólar. Enquanto isso o Japão teve que intervir para impulsionar o iene, que agora está 0,4% acima dos níveis pré-guerra.
Economias como Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka são consideradas as mais vulneráveis do sul da Ásia segundo análise da S&P Global Market Intelligence. “Esses países utilizam mais recursos para subsidiar empresas públicas de energia nacionais e, basicamente, proteger os consumidores finais do choque nos preços da energia”, registra a consultoria. Esses países são também o que possuem menor espaço fiscal para esses movimentos, acrescenta o documento, o que representa um preocupação
adicional.



