Israel e Líbano estão sob cessar-fogo, em teoria, há mais de 40 dias. Desde o primeiro deles, no entanto, as forças israelenses emitem ordens de retirada e atacam comunidades no sul do território libanês. Nesta quinta (28), voltaram a atingir também Beirute.
O governo de Binyamin Netanyahu diz visar alvos ligados ao grupo extremista Hezbollah. Chegou a estabelecer, inclusive, uma “linha amarela” que delimitaria a área em que suas forças atuariam.
Após cerca de cinco semanas com constantes ataques, porém, o Exército de Israel expandiu sua atuação para além da marca, argumentando que é preciso remover ameaças a cidadãos e soldados. O premiê anunciou nesta sexta (29) que suas forças ultrapassaram o rio Litani, que até então tinha sido o limite.
Desde o início da trégua, em 17 de abril, as forças israelenses mataram pelo menos 600 pessoas —uma média superior a 14 por dia—, elevando a mais de 3.200 o número de mortos e a 9.700 o de feridos a partir do começo do conflito, em 1º de março, segundo o Ministério da Saúde libanês. Tel Aviv afirmou que 10 de seus soldados foram mortos desde o início da trégua.
VIVER NO LÍBANO HOJE
“O cotidiano não é mais definido por uma rotina, mas por um estado de alerta constante sob a ameaça de aeronaves israelenses e ataques repentinos”, relata Mariam Shehab, moradora de Beirute.
Em entrevista à Folha, a jornalista libanesa diz que sua realidade foi bruscamente alterada já há três anos, com o início da guerra na Faixa de Gaza. Reforça, porém, que os últimos meses, com o conflito no Irã, deterioraram a situação.
Com pelo menos 1,2 milhão de pessoas deslocadas —mais de 20% da população—, o Líbano enfrenta uma crise humanitária. “Não se trata apenas do aumento dos preços”, diz Shehab ao se referir à dificuldade generalizada no abastecimento. “Trata-se de pessoas que já haviam perdido a estabilidade e agora estão perdendo o que restava dela.”
O Exército de Israel afirmou à reportagem, por meio de porta-voz, que as forças não têm “a intenção de causar dano” aos libaneses. Segundo a corporação, as tropas emitem alertas de retirada exatamente por entenderem que é necessário atacar a infraestrutura do Hezbollah, não os civis.
“Não existe outro Exército no mundo que abandone completamente o elemento surpresa e diga ao adversário quando, por que e quem atacará”, afirma.
AONDE ISRAEL VAI CHEGAR?
Antes da trégua, o intelectual palestino Yezid Sayigh, radicado em Beirute, disse em entrevista à Folha que a estratégia israelense de operação no Líbano parecia condizente com o prenúncio de uma guerra civil.
Com a manutenção de ataques após o acordo, Sayigh atualiza sua análise e afirma que a “destruição sistemática e metódica de vilas e cidades inteiras” na região sul libanesa não tem mais “qualquer objetivo militar”.
A operação, opina ele, “serve à estratégia mais ampla de destruição massiva, que não é apenas física”, remove “a possibilidade de vida nessas áreas e intimida as populações desses países vizinhos“.
“Mais do que intimidá-las, elimina ou destrói sua capacidade de produzir, reconstruir, reparar e de restaurar suas vidas”, acrescenta. “Isso é o que vimos em Gaza, e isso é o que estamos vendo no sul do Líbano.”
O pesquisador, que é membro do Centro Carnegie para o Oriente Médio, com sede em Beirute, aponta paralelos entre as incursões. Ressalta, porém, que, no caso de Gaza e da Cisjordânia, “há uma ala israelense ultranacionalista e ultrarreligiosa poderosa no governo que busca a expulsão completa de todos os palestinos e a reivindicação da terra para assentamento judaico”.
O Exército israelense, por sua vez, rechaça a ideia de que haja destruição sistemática no Líbano. “Em vez de destruir uma aldeia com um esquadrão da Força Aérea —como poderíamos ter feito—, colocamos soldados dentro da aldeia para manobrar e arriscar suas vidas, apenas para garantir que estejamos combatendo diretamente essas ameaças, não apenas bombardeando tudo e varrendo a área.”
Segundo as Forças Armadas, o Hezbollah militarizou as aldeias do sul do Líbano e, por isso, Israel destrói suas instalações. “Cada casa tinha algum tipo de ligação com o Hezbollah. Poderia ser uma arma, a entrada de um túnel, bandeiras, oficinas de explosivos para artefatos explosivos improvisados”, diz. A corporação afirma basear a acusação em informações dos setores de inteligência obtidas com moradores locais.
O Exército afirmou à reportagem que não pode detalhar estratégias sobre Gaza e que não é possível comparar as operações. De todo modo, afirma haver paralelos. “Há uma organização terrorista em cada lado, organizações que iniciaram guerra contra Israel. E nosso trabalho é garantir que elas não façam isso novamente.”
LIBANESES EM CRISE HUMANITÁRIA
A população libanesa afetada depende de ONGs que trabalham em paralelo ao governo para estancar parte dos problemas suscitados pela crise. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) atuam na região desde antes do conflito em Gaza e, atualmente, têm cerca de 600 trabalhadores no território.
A psicóloga brasileira Tatiane Francisco chegou ao Líbano para trabalhar para a MSF um mês antes de os Estados Unidos e Israel atacarem o Irã. Desde então, atende libaneses deslocados e afetados pelos ataques. “Uma das maiores necessidades que temos encontrado são as de saúde mental”, diz.
Cerca de 90% das pessoas que trabalham para a organização, no entanto, são libaneses que “também estão recebendo seus familiares deslocados, que estão perdendo familiares e, de alguma forma, estão sendo atravessados por esse conflito”, conta a brasileira.
A POPULAÇÃO E O HEZBOLLAH
Com o cenário de iminente caos generalizado, o governo do presidente Joseph Aoun fica duplamente pressionado. De um lado, EUA e Israel buscaram um diálogo inédito entre as nações vizinhas para um acordo e, de outro, o Hezbollah recusa a abertura de conversa com o lado israelense.
A jornalista Mariam Shehab se vê numa parcela da população que não aceita a disposição para a conversa com Washington e Tel Aviv. “Não confiamos em um governo assim. Eles já provaram muitas vezes que são fracos”, diz.
Para ela, esse é o motivo de parte dos libaneses apoiar grupos como o Hezbollah. Há, por outro lado, analistas que apontam exatamente o oposto, dado o possível entendimento de que o grupo teria empurrado o país para a guerra, uma vez que recebe ajuda financeira do regime iraniano.
As Forças Armadas de Israel afirmam que o grupo extremista coloca os patronos iranianos acima da população libanesa. “O Exército israelense se preocupa mais com o povo libanês do que o Hezbollah, já que fizemos tudo ao nosso alcance para garantir que eles se mantivessem fora desse conflito.”
Já o pesquisador Sayigh diz ser possível observar um “padrão muito claro” na atuação das tropas israelenses. “Eles têm mantido uma campanha constante contra jornalistas, mídia e contra paramédicos e trabalhadores da saúde em todo o sul [do Líbano]”. Essa lógica, segundo o palestino, é “exatamente a mesma que seguiram em Gaza”.



